Há minúcias consideradas de menor importância teológicas, isto é, não essenciais ao pleno desenvolvimento do cristianismo: são as formas de culto e quais hinos devem ser cantados, a arquitetura da igreja, o numero de vezes em que se celebra a santa ceia, uso de jóias, de vestes, o cumprimento dos cabelos, uso ou não de barbas e bigodes, a pratica de esporte, etc. Estas e tantas outras doutrinas periféricas podem sinalizar o grau de compreensão que se tem das doutrinas fundamentais, tais como o da regeneração, da expiação, e da graça. O intuito aqui de tratar de uso e costumes da igreja não significa que desejo assumir uma postura eticamente liberal ou antinomista, apenas reavivar a Teologia da Graça.
No Brasil devido ao largo preconceito sobre o tema e por falta de literatura que discorra biblicamente sobre o uso e costumes, alguns evangélicos continuam com sérias duvidas sobre seu comportamento. É muito comum no meio evangélico os cristãos questionarem em como distinguir a doutrina bíblica dos costumes provenientes das tradições humanas. Inquietos querem saber se jogar futebol, assistir Televisão,usar jóias, usar calções, ir a praia entre outras práticas, se é pecado e se entristece a Deus. Os trechos bíblicos usados para combater “Usos e Costumes” na igreja, são interpretados erroneamente. São tirados dos seus respectivos contexto e adaptados para sustentar o orgulho doutrinário dos pastores e demais lideres, não levando em conta o contexto histórico e cultural da época.
Veja algumas proibições e os versículos usados:
Possuir TV ou assisti-la: (Salmos 25:15), (Salmos 101:3)
Ir a piscina ou a praia, ou ficar semi-nu. (Salmos 1:1), (Romanos 6:12), (Apocalipse 3:18), (Apocalipse 16:15)
O que é Cultura?
Não é tão fácil definir, os antropólogos já criaram mais de trezentas definições. Cultura tomada em seu amplo sentido etnográfico, é todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade em que vive.
A região geográfica, o relevo, o clima, a vegetação como matas e florestas influencia e determinam o uso e os costumes do individuo. Por exemplo: O clima na maioria das vezes determina não apenas o tipo de vestimentas, mas também as cores e até o material utilizado na confecção dos mesmos. No deserto árido e seco obriga os árabes a usarem roupas brancas de algodão, no clima úmido da Amazônia os índios andam nus, as mulheres bolivianas vestem se com várias camadas de roupas para se defenderem-se do frio andino.
Não se pode atrelar qualquer valor moral a essas diferenças, por que as pessoas não optaram por se vestir assim e sim uma forma de se adaptarem ao local em que vivem no seu habitat natural. A topografia a vegetação e o clima influenciam diretamente nos costumes do individuo.
O uso de vestes ou os costumes e valores éticos, tem pouco haver com a moralidade de uma sociedade, o que afeta a sociedade é a desobediência ás Leis que doutrinam o uso de determinadas vestes que devem ou não ser usadas. Isso significa que a moralidade de um povo não pode ser medida segundo as leis de nossa sociedade, mas sim pelas leis particulares de cada sociedade em si. Cada civilização, portanto tem suas próprias características criam roupas e adornos específicos de acordo com sua cultura e costumes.
A cultura é semelhantemente responsável, em qualquer sociedade, pelos códigos comportamentais das pessoas. Criam-se regras que valem apenas em um determinado circulo social.
Para sabermos se um homem está ou não vestido de roupa de mulher, precisamos saber de como a cultura em que ele está inserido determinou o que um homem ou uma mulher deve vestir. Ex: no ocidente um homem trajar-se de vestidos pode significar que ele é um homossexual, na palestina, contudo, será identificada apenas a sua tribo. Certa tribo indígena no Brasil determina que as mulheres devam usar apenas um cordão em volta da cintura e outro amarrado em direção oposta. E isso para os índios não é imoral. Acontece que a nudez dos índios não advém do pecado mas sim da própria elaboração cultural.
A bíblia esta repleta de exemplos de evangelistas e missionários que chegando a um contexto cultural diferente do seu, respeitaram a maneira de ser daquele povo e procuraram adaptar-se aos seus ouvintes.
O apostolo Pedro, viu-se obrigado a reconhecer que a cultura judaica não era melhor do que a dos gentios, foi quando o mesmo estava hospedado em jope na casa de um certo Simão, ele teve a visão do lençol e dos repteis e quadrúpedes os quais ele chamou-os de imundos (At 10). Através desta visão Pedro pode compreender que o evangelho não era exclusivo dos Judeus e sim de todas as raças humanas sem qualquer distinção. O sucesso do apostolo Paulo demonstra sua habilidade em reconhecer o contexto cultural dos povos. (I Corintios 9:22) – Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. Deus não quer que formemos guetos culturais mas sermos “o sal e a luz do mundo”. A ética cristã tem a obrigação de discernir com precisão o que é produto do pecado e o que é fruto da graça divina.
Na cultura judaica, a nudez simplesmente representava pobreza, vergonha e fragilidade moral. (Jó 1:21) – E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR. O mesmo sentido tem quando Adão e Eva se esconderam de Deus. (Gênesis 3:7) – Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
As roupas na bíblia tem valores tanto espirituais como ornamentais, o uso metafórico, mostra de modo conclusivo uma percepção clara de que as roupas e as indumentárias passavam uma mensagem tanto cultural como espiritual. ( Is 61.10), Isaías se alegra por Deus trajar o seu povo com vestes de salvação, envolvendo-os com o manto da justiça(Pe 5.5). Pedro roga aos crentes que “vistam de humildade”,(Ap 3.18) O Senhor exorta a igreja de laodiceia a comprar vestes brancas para cobrir a vergonha de sua nudez.
O uso dos cabelos
No antigo testamento vemos várias referencias do uso dos cabelos como forma de expressar o favor de Deus. (Isaías 61:10), parte b, como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com as suas jóias, turbante é a forma em que os cabelos são arrumados isto é penteados. Os sarcedotes usavam vários adereços e ornamentos além das tiaras sobre a cabeça. ( Ez 39.27-28),(Ez 44.18). Até o modo de usar representava tanto alegria como tristeza (EZ 24.17).
O uso de Jóias.
Devemos separar o simbólico do literal para não confundirmos, (Gênesis 41:42) – E tirou Faraó o anel da sua mão, e o pôs na mão de José, e o fez vestir de roupas de linho fino, e pôs um colar de ouro no seu pescoço. O uso do anel aqui simboliza autoridade. (Ester 8:2) – E tirou o rei o seu anel, que tinha tomado de Hamã e o deu a Mardoqueu. E Ester encarregou Mardoqueu da casa de Hamã. Aqui o mesmo sentido o rei transmitindo o poder de Hamã para Mardoqueu. Judá após ter deitado com Tamar subjulgou a mesma, e sendo indagado a respeito do que ofereceria a mesma em forma de pagamento, foi lhe prometido um cabrito, porém ela lhe pediu um penhor: (Gênesis 38:18) – Então ele disse: Que penhor é que te darei? E ela disse: O teu selo, e o teu cordão, e o cajado que está em tua mão. O que ele lhe deu, e possuiu-a, e ela concebeu dele. Os colares era para realçar o pescoço tido como a parte sensual da mulher. (Cânticos 1:10) – Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares. Tanto colares como braceletes (pulseiras) eram adornos naturais das mulheres. (Ezequiel 16:11) – E te enfeitei com adornos, e te pus braceletes nas mãos e um colar ao redor do teu pescoço.
Os Pendentes.
(Gênesis 24:47) – Então lhe perguntei, e disse: De quem és filha? E ela disse: Filha de Betuel, filho de Naor, que lhe deu Milca. Então eu pus o pendente no seu rosto, e as pulseiras sobre as suas mãos; (Ezequiel 16:12) – E te pus um pendente na testa, e brincos nas orelhas, e uma coroa de glória na cabeça.
O Traje das Mulheres.
(I Timóteo 2:9) – Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos,
O Apostolo Paulo não intenta proibir e sim declarar que a beleza verdadeira está resumida ao seu interior, o Apostolo não condena os enfeites e adornos e sim o uso descontrolado e a extravagância, como falta de bom senso e ausência de pudor.
Para Russel Shedd, comentarista da Biblia Vida Nova, “Mulheres em trajes decentes – traje no grego (Kastolé), refere-se ao comportamento em geral e não necessariamente as vestes. Decente ( Kosmios – grego) tem o efeito de “em ordem”. A idéia dominante da frase inteira é de bom gosto, sensibilidade, em contraste com os excessos e a falsidade.
Sabemos que a realidade do Povo Judeu era outra e diferente dos nossos dias atuais e imitá-los seria impossível. Não existe na bíblia nenhuma ação ou postura que condene o uso de adornos ou jóias, somente doutrinas dos homens que reprovam severamente condenando a cultura, o usos e os costumes do povo.
Tal legalismo defendido pelas igrejas tem várias explicações:
1º) Restringir o uso e costumes e tradições, como forma de santificar o povo.
(Sl. 32:8)(Sl. 32:9) – Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio para que não se cheguem a ti.
2º) Coibir a Libertinagem.
(Gálatas 5:1) – ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão. (Gálatas 5:2) – Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.
Este argumento é usado para coibir o comportamento dos crentes.
A mensagem da Graça não precisa do reforço da lei para impor condições, pois a lei não arbitra sobre a santidade. (Cl. 2:16) (C.l 2:20) (Cl. 2:21) (Cl. 2:22)
3º)Que a Salvação vem pela graça.
Jesus reprovou severamente os lideres religiosos os quais usavam fardos,(doutrinas e Leis) pesadas e arbitrárias sobre o povo as quais eles mesmos não cumpriam. (Mateus 23:4)
trata-se aqui de pastores “Religiosos” usando do legalismo para frear, reprimir, e oprimir o povo levando-os a escravidão religiosa. Os quais reivindicam para si uma “Glória” enaltecendo suas igrejas denominado-as ironicamente de “primitivas”, e colocando-se como autênticos ”Messias”. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do Inferno duas vezes mais do que vós. (Mt 23:15).
A violação de regras básicas tiram a fidelidade da hermenêutica os quais personalizam as doutrinas, adequando-se as suas personalidades intelectuais.
Praticar exercício físicos, Lutas.
(I Timóteo 4:8) – Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir.
Aqui o Apostolo Paulo julga a piedade como mais nobre que os exercício físicos sem desmerecê-los. O Apostolo Paulo não era contra os exercícios físicos pois assim ele estaria se contradizendo. Em outras passagem ele usa de metáforas referindo-se a vida crista. (I Corintios 9:24) – Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. (I Corintios 9:26) – Pois eu assim corro, não como a coisa incerta; assim combato, não como batendo no ar.( batendo no ar refere-se a lutas orientais ou gregas naquela época). O apostolo não está reprovando, mas sim fazendo uma comparação sobre a luta espiritual e o esporte praticado pelos homens.
Os falsos crentes, esses sim, devem ser rejeitados diz o apostolo Paulo. (1Co 5.11 ) Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Jesus em sua oração pede ao Pai que não nos tire do mundo, e sim que nos livre do mal.(Jo 17.15).
Beber Vinho.
O Apostolo Paulo dá as diretrizes aos bispos e aos diáconos os quais não podem ser dado ao vinho. (I Tm 3:3) – Não dado ao vinho. E no versículo (I Tm. 3:8) não dados a muito vinho. Observa-se com clareza que não existem restrições quando ao uso e sim ao excesso, abaixo o apostolo dá uma receita ao Timóteo contra as enfermidades estomacais.
(I Timóteo 5:23) – Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades. Jesus é citado em outras passagens como um homem que também bebia vinho (Lucas 7:34) – Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos pecadores. Alguns interpretam que a santa ceia foi usado suco natural e não vinho fermentado. (Mateus 26:29) – E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai. Fruto aqui não se refere a fruta natural ou ao suco natural, mas sim o resultado final do seu processamento que é o vinho. Veja o que diz em Mateus parte b. Mas a sabedoria é justificada por suas obras. (Mt 11:19), As obras e não o beber vinho ou suco.
A barba,o bigode.
Como condenar o crente por deixar sua barba crescer, as proibições de algumas igrejas vem de Gn 41.14. Através deste exemplo de Jose os doutrinadores desprezam centenas de outros textos nos quais os homens de Deus aparecem usando barba.
Roupas do Homem e da Mulher.
(Deuteronômio 22:5) – Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao SENHOR teu Deus. Em primeiro lugar é impossível descrever com detalhes como eram as vestes do homem e da mulher naquela época. As vestes nos dias atuais advêm de uma necessidade cultural e social e não moral.
Os Cabelos.
(I Corintios 11:5) – Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. (I Corintios 11:6) – Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.
Mais uma polêmica na igreja é quanto ao corte ou uso dos cabelos, e mais uma vez devemos analisar com cuidado pois a carta de Paulo escrita aos coríntios tinha um propósito pois a cultura de Corinto não era judaica, mas grega e fortemente influenciada pelos viajantes romanos que lá passavam, as mulher e os homens gregos vestiam-se de modo diferente das mulheres se homens judeus, como também uma diferença radical no comportamento e na liberdade. Os judeus não comiam a mesma comida dos gregos, já os gregos comiam tanto comida de sua própria culinária como a comida dos judeus, os homens judeus cobriam suas cabeças para orar,e os gregos não, as mulheres gregas não usavam véu, e se as judias ficassem sem véu eram tidas por prostitutas.
O véu era um costume antigo entre judeus de uso normal e cotidiano e não diz respeito à cultura ocidental. A descendência das mulheres da antiguidade usavam o véu. (Gênesis 24:65) – E disse ao servo: Quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? E o servo disse: Este é meu SENHOR. Então tomou ela o véu e cobriu-se. Vemos aqui que diante dos homens que ali estava ela estava com a cabeça descoberta. O senhor aqui refere a Isaque o marido de rebeca.
Paulo compara o uso dos cabelos compridos dando a mesma relevância na utilização dos véus, recorrendo a analogia, o apostolo revela que a mulher sem véu simbolizava na igreja o mesmo que uma mulher com a cabeça raspada simbolizava na sociedade grega, pois as esposas infiéis ou meretriz, tinham a cabeça raspada. O Apostolo estava apenas propondo às mulheres judias a manutenção dos costumes hebraicos, pois o uso dos véus e dos cabelos era pertinente aquele contexto cultural. O que dizer dos negros africanos onde o cabelo é crespo e não cresce, lá a natureza ensina que tanto homens como mulheres devem ter seus cabelos curto, há de convir que são as múltiplas ambiências culturais que determinam tais valores. A igreja não pode isolar-se geograficamente, a solução para a santidade não é criarmos ordens monásticas que nos mantém recluso. Vivemos uma realidade diferente em todos os sentidos, tanto cultural como ética.
O poder moral de discernir ou recusar o que é torpe, vem da liberdade de escolha, maturidade intelectual e espiritual, e nunca da censura e do patrulhamento da nossa liberdade crítica. (I Corintios 6:12) – Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.
(Mateus 15:11) – O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. Isto é do coração, como os pensamento a atitudes do coração.
O problema do legalismo é procurar um atalho para a santificação. A igreja enfraquece quando aceita a premissa de que deve acatar sem questionar tudo o que vier enfeitado de religiosidade.